Do país do futebol ao país das manifestações



Os brasileiros tomaram as ruas. Diferente do que se esperava, não é uma torcida organizada festejando a Copa das Confederações, mas sim milhares de pessoas pleiteando melhorias no transporte público, na saúde, na educação, na segurança, entre outras reivindicações.

Na segunda-feira, em 11 capitais brasileiras, pelo menos 250 mil pessoas demonstraram sua insatisfação com os problemas atuais do país. 

Apesar do direito de livre manifestação e da liberdade de expressão, em algumas cidades a tentativa de sufocar os protestos e de criminalizar os manifestantes em muito lembrou a ditadura militar. 

Na verdade, se as imagens de televisão fossem em preto e branco ou se houvesse ruídos nas transmissões de rádio, seria difícil saber se os fatos noticiados aconteceram em 68 ou se estão acontecendo agora. Policial afirmando que manifestantes estão sendo fotografados e fichados, repressão, cassetetes, bombas de gás, cavalaria, etc. 

A Constituição brasileira parece ter sido esquecida pelas autoridades, mas os direitos nela assegurados movem milhões pelas ruas do país. 
 
Além disso, a tentativa de se buscar as lideranças do movimento demonstra que as autoridades não reconhecem, ou não querem reconhecer, a força dos movimentos multitudinários.

Não se trata de um movimento com um líder, apoiado por uma partido político; o que temos é uma insatisfação geral, pessoas que conseguem se mobilizar “on line”, coletivos, sem liderança definida, mas que estão unidas com o propósito de mostrar que não vão se conformar com a realidade.

É preciso que as autoridades respeitem o direito de livre manifestação, que não haja abusos por parte da polícia, que as manifestações não seja criminalizadas e que os manifestantes, usando as palavras do Presidente Nacional da OAB, se empenhem em se conduzirem de modo pacífico.

O brasileiro, de repente, deixa de acompanhar os jogos e se mobiliza por um Brasil melhor. Os protestos têm ganhado apoio em vários países e, aos poucos, vai reunindo mais e mais pessoas.

Por mais que os governantes não se manifestem suficientemente, não há como fingir que nada acontece e, ao que parece, ou teremos mudanças ou não teremos Copa no país do futebol.
  

Nara Borgo é advogada criminalista, mestre em Direito, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/ES , conselheira da Ordem e professora da Faculdade de Direito de Vitória (FDV) | Escreve quinzenalmente às quartas-feiras no blog http://www.fernandocarreiro.com

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