Coluna Pitoresco: Vício Redibitório
Doutor, vim aqui para contratar os seus serviços de advogado para entrar com uma ação contra um vizinho meu confrontante, para evitar um mal maior, porque não agüento mais os gracejos dos companheiros, além do prejuízo que estou levando. Já procurei por várias vezes o dito vizinho, mas ele se nega a entrar em acordo, alegando que "negócio feito num pode ser desfeito".
- Bem, se o senhor me contar o que aconteceu, talvez eu possa resolver a pendência amigavelmente... ponderou, prudentemente o advogado. -
"Doutor amigavelmente não adianta, pois eu já pelejei e o citado vizinho não arreda o pé. O caso é o seguinte: eu tinha uma mula baia, que beirava uns 3 prá 4 anos de idade, muito boa de serviço. Olha doutor, todos os dias nem bem o sol tava nascendo ela já estava arriada com dois balaios grandes e ia para o cafezal que dista quase dois quilômetros de picada morro acima, no carrego do café colhido para o terreiro de minha fazendola. Ela dava no mínimo umas oito viagens por dia, até o entardecer. Quando acabava a labuta do carrego do café, eu derriçava os balaios do seu lombo, atrelava a bichinha no mastro da moenda e até à noitinha ela puxava o engenho de cana. Depois disso tudo o senhor pensa que ela descansava? Que nada! Eu apenas jogava no seu lombo uns dois baldes d'água, lhe dava um embornal de milho, lhe montava no pêlo e ia lá pra vendinha do seu Tonico da Quitanda tomar umas biritas com os companheiros. E a mula ali, oh! Firme esperando para me levar de volta pra casa, sem dar um relincho sequer..."
- Está bem, mas vamos logo aos finalmente. Impacientou-se o advogado.
"Pois é, mais como eu tava relatando, dia desse, depois de tomar uns goles mais ajeitados, o meu vizinho que também estava lá na vendinha, me perguntou se eu num estava interessado em trocar a mula baia... Eu respondi quer não trocava aquela mulinha por animal nenhum. Aí seu doutor, ele disse que queria trocar a minha mula na sua mulher que era muito boa de serviço. Bem, aí o negócio me interessou, porque eu sou sozinho e até que tava precisando mesmo de uma mulher para lavar, cozinhar, arrumar a casa, ajudar na labuta da fazenda e aquelas outras coisas... o doutor sabe como é, né...?
Então eu topei a barganha. Entreguei na hora a mula, para garantir o negócio e ele buscou a sua mulher e me entregou ali mesmo na porta da quitanda. Pois bem, passados uns dez dias da troca, fui ver que tomei uma "manta" e fui enganado, pois a tal mulher num valia nadica de nada... Era preguiçosa, dormia até tarde, num agüentava nem meia viagem de carrego do café, e ainda assim carregando só um balaio, num puxava o mastro da moenda e nem me carregava para ir na vendinha. Encurtando a conversa, a minha mula valia umas vinte daquela mulher. Então resolvi desfazer o negócio e o vizinho não aceitou de maneira alguma. Por mode disso é que estou aqui para contratar seus serviços de advogado para obrigar o dito cidadão me devolver a mula e apanhar de volta aquela marmota de sua mulher. Ah! Ia me esquecendo, a dita também num gosta de tomar banho.
- Muito bem. Interrompeu o advogado. E com ares doutorais lecionou: O seu caso tem que ser mesmo postulado em Juízo, pois trata-se do que se chama em direito de evidente "Vício Redibitório".
Seu Clidinho ao saber do caso comentou: É, pelo jeito o advogado só faltou perguntar ao cliente se a dita e pobre mulher, quando na sua companhia, recusou e não queria de maneira alguma usar ferraduras...
Nacyr Armm
