Raphael Câmara

O ranger da porta

O ranger da porta já prenunciava a destruição daquele corpo infantil. O arrastar dos chinelos. As chaves tocando a fechadura. O tilintar da maçaneta envelhecida. O boné jogado à mesa. O tropeço prosaico no espaldar da cadeira. Um barulho indiferente para tantos era mesmo a anunciação das dores da menina, arrostada pelo demônio que se nutria do mesmo sangue da vítima. Assim viveu Maria. Talvez esse seja o nome criança emudecida pela recorrência dos suplícios intermináveis, divisados lá de fora, pelos sons mortais que ouvia ao longe.

Todos os dias e por muitos anos. Alguma coisa pior antecedia tudo isso. Antes dos sinais do algoz que se aproxima, o afastamento da besta-fera quando concluía as abominações, já destruiu Maria por saber do retorno certo do demiurgo. Sons, gestos, olhares.

Chegadas e saídas. A desgraça povoou o espírito da menina em tudo. Não havia alegria porque o indiferente do mundo era bastante para relembrá-la de largar a boneca e calar. Quantos sinais Maria não enviou? Quantas mãos apertou pedindo ajuda em silêncio? Teria olhado para mim algum dia? Encarado-me em alguma esquina, apressado e soberbo? Assim seguiam seus dias horrorosos. De Maria e de seu filho, porque desse horror surgiu a vida humana, crescente no ventre minúsculo e dilacerado da menina.

O filho estava lá e Maria não se deu conta e nem nunca entenderá. Maria e o filho, para além das vísceras unidas e da mútua inconsciência de serem um só, dividiram o mesmo horror: os sons que indicam a destruição. Maria ouviu as chaves, mas o filho ouviu o fórceps. A menina-mãe - meu Deus - estremecia, congelava e enlouquecia em silêncio ingênuo no batente da porta. O filho também. Sentiu a mão humana o esganando até a dormência do coração, até então palpitante e seguro no pequeno útero que o guardava. Dividiram dores Maria e o filho. As mesmas. Os mesmo sons metálicos ressoaram a destruição de suas vidas tão curtas. 

Nisso estiveram unidos, oxalá apenas nisso para Maria. Restam-nos as outras Marias e seus olhares sôfregos naquela loja de brinquedos, na escada rolante ou na sala confortável de uma família abastada. Restam-nos também os demônios consanguíneos das Marias, que me lêem agora com um sorriso disfarçado no canto da boca imunda. Sobram, enfim, as lutas, porque todo esse sangue derramado - das Marias e dos seus filhos - nos cobrarão o preço elevado da omissão.  

Raphael Câmara é advogado criminalista e membro da Comissão da Infância e Juventude.

 

 

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