Henrique Geaquinto Herkenhoff

Crime desorganizado

O crime organizado ganhou as manchetes, mas é um assunto cheio de subtemas, aspectos e pontos de vista, exigindo muita reflexão e aprofundamento. Como o espaço aqui é limitado, vamos tentar dividi-lo, e a primeira providência é estabelecer um acordo semântico, isto é, nos certificarmos de que estamos realmente falando da mesma coisa. Parece um formalismo acadêmico, mas, na verdade, para enfrentar o problema, seja na teoria, seja na prática, a chave é exatamente entender o que estamos chamando de “organização”.

No dia a dia, dizemos que algo é organizado quando tudo está ordem lógica, no seu devido lugar e funcionando como um relógio. Associamos a palavra “organização” a outras como “eficiência” e “método”. Então, logo concluímos que o crime organizado seria uma quadrilha capaz de roubos cinematográficos, na qual tudo é planejado e executado com precisão e harmonia. Contudo, estes seriam apenas criminosos mais inteligentes e hábeis que a média, mas ainda poderiam ser combatidos individualmente. O desafio posto pelas organizações criminosas é que elas continuam funcionando, muito embora tantos de seus integrantes sejam presos ou mortos. Por outro lado, seus membros se mostram tão violentos e incompetentes quanto qualquer outro delinquente e os seus conflitos internos não são mais raros. Compreenderemos melhor esse fenômeno se substituirmos a palavra “organização” por “instituição”.

O único juiz de uma comarca pode se aposentar ou tirar férias, por exemplo, mas os funcionários daquela vara continuarão trabalhando e ele será substituído. Nem por um instante o Judiciário deixará de existir naquela cidade, porque ele é uma instituição social, não uma pessoa biológica. E uma instituição é muito mais do que um grupo de indivíduos, ela desenvolveu mecanismos internos, modos de funcionamento e de relacionamento. O todo é muito mais que a soma das suas partes.

As organizações criminosas pelo mundo têm suas próprias características e se encontram em estágios muito diferentes de evolução, mas trazem em comum haverem deixado de ser apenas a soma de malfeitores individuais, adquirindo – às vezes inconscientemente – um sentido coletivo que lhes permite adaptar-se e seguir em frente. Ainda necessitamos prender esses criminosos, mas o efeito é transitório, porque as peças são substituídas automaticamente. Prender (ou matar) não é suficiente, algo mais será necessário.

*Henrique Geaquinto Herkenhoff é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV.

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