Henrique Geaquinto Herkenhoff

AGATHA E O FOGO AMIGO

As investigações concluíram que um policial atingiu a menina Agatha ao confundir um objeto metálico com uma arma. Já publiquei outro artigo sobre o assunto. Temo que, como sempre, o debate se perderá em discussões menores. Os melhores profissionais estão sujeitos a cometer erros, ainda mais em situações extremas, nas quais têm frações de segundo para tomar uma decisão. Por outro lado, se a criança houvesse sido atingida por traficantes, não devemos pensar que está tudo bem.

Vejo ser sistematicamente defendida uma política de enfrentamento direto às facções criminosas, custe o que custar em termos de vidas dos policiais e da população. As mortes dos traficantes, claro, são comemoradas pela maioria da população. E muitos acham que isso vai dar certo.

Militares norte-americanos, acostumados a lidar com forças insurgentes e resistências locais em todos os países do mundo já aprenderam que não se pode simplesmente matar o maior número possível de talibãs, sem se importar com os efeitos colaterais. E isto não apenas em respeito aos direitos humanos, em consideração à população inocente, presa em meio ao fogo cruzado, mas porque essa estratégia produz efeitos opostos aos pretendidos.

Se o seu alvo está disperso em meio a uma multidão, certamente haverá ali pessoas que colaboram com o crime, outras neutras, apenas tentando continuar vivas, e, por fim, aquelas que querem ajudar às autoridades. Operações com vítimas inocentes simplesmente empurram a população local para o lado adversário. Além disso, não produzem efeitos duradouros, porque criminosos abatidos são imediatamente substituídos: a fila é longa e não para de andar; a “carreira” de traficante é curta, mas garante ascensão rápida.

Confrontos armados em meio urbano devem ser evitados ao máximo, o que implica desenvolver maneiras alternativas de combater as facções criminosas, inclusive por estratégias indiretas muito mais eficazes. Por exemplo, se sabemos que as facções nasceram, cresceram e ainda dependem completamente do nosso caótico sistema prisional, resolver a questão carcerária poderia sair muito mais barato e ter muito mais efeito prático. Em vez de apenas “pensar fora da caixa”, podemos simplesmente sair de dentro dela.

Henrique Geaquinto Herkenhoff é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV.

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